Morgan Stanley (MS)
A indústria chinesa de fabrico de robôs humanoides, composta por empresas como a Leju Robot, a UBTech e a Unitree, tem gerado parte da sua receita através de vendas destinadas a centros de treino para robótica apoiados pelo governo, que posteriormente recolhem e vendem os respectivos dados às empresas fabricantes. Este modelo de financiamento, que evoca o utilizado pela Nvidia para os centros de dados, começa a causar, entre os investidores, algumas dúvidas associadas à procura real destinada a estas empresas, altamente valorizadas pelo possível papel que os humanoides podem no futuro da inteligência artificial (IA) e da automação.De acordo com o Financial Times, a proliferação de startups de robótica tem sido encorajada pela estratégia seguida por Pequim, que tem incentivado os governos locais a construírem centros de formação de grande escala para robótica. Estes centros, financiados pelos governos locais e pelas fabricantes de robôs, geram dados associados aos treinos das máquinas e vendem-nos depois aos próprios fabricantes - que, por sua vez, utilizam os dados para melhorarem os robôs. Só nos últimos dois anos, estabeleceram-se quase 370 empresas deste setor, das quais mais de 50 já entraram ou planeiam entrar em bolsa. A Unitree, a fabricante chinesa mais acompanhada pelo mercado, estreou-se na quarta-feira no Star Market, onde as ações fecharam a primeira sessão com uma valorização superior a 460%, depois de terem registado um valor de abertura de 629%. A empresa fechou a sessão com uma avaliação de 50 mil milhões de dólares.De acordo com a Interact Analysis, em junho tinham sido construídos ou estavam em processo de construção mais de 90 centros de treino para robótica. Os preços variam, mas um dos vendedores partilhou com o Financial Times que para dados equivalentes a cinco minutos de dança de um robô, o preço pode rondar os 148 mil dólares.A corrida à construção de centros de treino obrigou a alterações de previsões associadas a esta indústria. A Morgan Stanley reviu em alta as suas previsões relativas ao envio de robôs humanoides chineses em 2026 para 50 mil - muito acima dos 28 mil de junho -, justificado por um valor de compras de governos locais e utilizadores comerciais mais elevado do que o esperado. Mas a intervenção direta dos governos locais no financiamento dos centros de formação dificulta a distinção entre a procura genuína da procura induzida por políticas públicas."Este modelo tem-se espalhado rapidamente porque reduz o custo de construção de instalações, compra de equipamento e organizar equipas de teleoperações," disse Poe Zhao, analista tecnológico independente e fundador da Hello China Tech, ao Financial Times.A dimensão desta dependência é visível nas contas das próprias empresas. A Shenzhen Leju Robot revelou que, no ano passado, os centros de treino de robótica representaram cerca de 45% das vendas do seu modelo principal, o humanoide Kavo. Já a UBTech divulgou aproximadamente o equivalente a 18 milhões de euros em encomendas de centros apoiados pelo Estado. No maior centro de treino de robôs de Pequim, onde estão instalados mais de 100 robôs Kuavo, a Leju detém quase 38% da empresa gestora, de acordo com dados consultados pelo Financial Times.O sistema circular da indústria robótica chinesa tem gerado dúvidas junto dos investidores, que começam a questionar o estado do ciclo de expectativa do produto. "Existe um consenso alargado entre os investidores em fase inicial de investimento que a robótica humanoide está a aproximar-se do pico das expectativas", disse um investidor de um fundo de investimento sediado em Pequim. Reforçou, ainda, que estão à procura de assegurar uma saída através da venda de parte das suas posições a outros investidores.Defensores do modelo argumentam que existe uma capacidade real de impulsionar a indústria nacional da robótica e de estabelecer uma cadeia de abastecimento, citando, como exemplo, as indústrias dos paineis solares e dos carros elétricos, atualmente dominadas pela China. No panorama dos governos locais também existem benefícios, em particular a atração de investimento, talento e cadeias de abastecimento para zonas em necessidade.Fica em aberto a questão de saber se os dados gerados por estes centros justificam o investimento. Marco Wang, analista da Interact Analysis, sediada em Xangai , alerta que os dados recolhidos não serão "100% úteis" já que estes robôs não foram colocados em ambientes reais.
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