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O catalisador da transição energética foi a geopolítica
21/06/2024 14:30

O mundo está em transição. Concretamente, "entre dois sistemas, um ainda muito assente nos combustíveis fósseis e outro sistema que procura utilizar mais recursos de energia limpa ou renováveis", afirmou Lívia Franco, professora associada e investigadora principal no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, na sua comunicação na Electric Summit que se realizou ontem no Porto.

Em 2022-23, a Europa sentiu de uma forma muito aguda a crise energética por causa da guerra na Ucrânia, o que implicou a resolução da sua dependência energética da Rússia. Por isso, "redobraram os esforços para criar um sistema energético alternativo, mais eficiente e mais barato, mais limpo e que fosse mais seguro".

A verdade é que não se sabe o que vai acontecer até 2050, por isso, acho que é, sobretudo preciso, do ponto vista empresarial também, ter muita atenção à evolução das circunstâncias. Lívia Franco
Professora associada e investigadora principal no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica.
Como sublinhou Lívia Franco, isto não foi apenas um problema da Europa, porque esta crise, por efeitos da globalização, contagiou o resto do mundo. É o que explica a viragem global para as energias limpas e renováveis, como uma "via para resiliência, a independência energética e para o controlo soberano dos recursos energéticos". A energia e a geopolítica enlaçam-se.

Pico dos fósseis em 2030

A investigadora referiu que as diferentes projeções mostram que ainda não se assistiu ao pico do uso das energias fósseis, que deve ser atingido em 2030. Mas, em simultâneo, assiste-se à aceleração do desenvolvimento das energias limpas e renováveis, e as projeções mostram que é uma tendência já muito consolidada para ter um grande peso em meados deste século.

"A verdade é que não se sabe o que vai acontecer até 2050, por isso, acho que é, sobretudo preciso, do ponto vista empresarial também, ter muita atenção à evolução das circunstâncias", advertiu Lívia Franco.

As narrativas políticas e dos media referem a transição energética como uma obrigação moral e de um dever ético para com o planeta e as gerações vindouras, tendo em vista as consequências das alterações climáticas. Mas, na análise de Lívia Franco, "o verdadeiro catalisador desta transição foi a necessidade, o medo, a geopolítica. Foi por causa desta que a transição se acelerou".

Acrescentou que, se durante muito tempo, "o mantra da globalização era a redução dos custos, agora o mantra é a redução dos riscos, que tem um papel fundamental na equação da ponderação dos investimentos que estão a ser feitos".

A investigadora referiu ainda que, por causa dos acontecimentos das duas últimas décadas, a opinião pública global passou a considerar não só os benefícios, mas "tornou-se mais consciente dos riscos e dos custos da globalização. O que não mudou é o eixo central, o coração, o elemento determinante da própria globalização, ou seja, a interdependência". Mas também a interdependência deixou de ser apenas forma de maior cooperação, e respostas comuns para problemas comuns, mas "ser recinto e arma de uma competição num contexto global" entre a China e os EUA.

Mobilidade precisa de modelos de negócios disruptivos O Nio é um fabricante chinês de carros elétricos cujo modelo de negócio passa pela substituição da bateria em vez de carregamento. "Em 2020, 30% das pessoas diziam que na próxima aquisição de um veículo este seria elétrico. Em 2023 subiu para 55%", assinalou Miguel Cardoso Pinto, Advanced Manufacturing and Mobility Leader e Partner da EY, com base num estudo da EY Mobility Consumer Index 2023 . Em 2021 a compra dos veículos elétricos era justificada pelas preocupações ambientais. Dois anos depois, o aumento do preço dos combustíveis passou a ser a principal razão . Mais de 70% dos potenciais consumidores estão dispostos a pagar até 30% mais por um carro elétrico . "A decisão para a escolha já não é apenas o carro, é a proposta de valor à volta do automóvel, como a oferta de soluções de carregamento rápido", referiu. Em 2021 cerca de 50% das pessoas diziam que não escolhiam os veículos elétricos porque tinham um preço inicial elevado. Hoje o principal problema referido é a falta de postos de carregamento. Há ainda outros fatores como a ansiedade e a segurança com o carregamento em casa, o aumento do custo da energia, ou a dificuldade de encontrar lugares de carregamento públicos, o tempo de espera, adiantou Miguel Cardoso Pinto. Mas o ecossistema tenta responder a estes desafios. Deu como exemplo o Nio. É um fabricante chinês de carros elétricos cujo modelo de negócio passa pela substituição da bateria em vez de carregamento. "Têm postos de substituição de bateria, portanto, não há perdas de tempo nos carregamentos. Já têm mais de duas mil estações na China e estão presentes na Alemanha, Noruega, Países Baixos, por exemplo". A sua conclusão é que não são as tecnologias que são disruptivas, mas os modelos de negócio.FSF

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