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A malta não pode continuar distraída
09-08-2020 17:30

O verão dá origem à chamada “silly season”, em que tudo o que acontece é desculpável e atribuído à descontração que o período aconselha. Infelizmente, esta época estival será diferente por tudo aquilo que a pandemia nos obrigou a alterar nos nossos hábitos e nas nossas preocupações. Todos os dias surgem notícias que nos deveriam revoltar. Mas parecemos indiferentes, estranhamente conformados e sem um grito de indignação que mobilize e agite consciências e faça mudar as coisas.

Comecemos pelo Estado. É-nos prometida uma “orgia de dinheiro” para os próximos anos com um desfiar de promessas de novos investimentos, de contratação de pessoal, de programas de incentivo à economia, de proteção e desenvolvimento do interior, apostas estratégicas em novas fontes de energia limpa e um sem-número de outras ideias que tantas vezes não saem do papel. Ao mesmo tempo temos serviços públicos que continuam encerrados e sem capacidade para responder em teletrabalho, à impossibilidade de recuperação do tempo perdido em situações como as consultas, tratamentos e cirurgias que ficaram por fazer, ou apoios sociais atirados para a responsabilidade de associações que já não conseguem responder a quem mais precisa. Pretendem criar a ideia de que as coisas estão difíceis, e até tenderão a piorar, mas que no futuro tudo irá melhorar. O problema é que muitas das insuficiências sentidas no presente carecem de resposta imediata. Ninguém mata a fome hoje com uma sopa que lhe será servida dentro de seis meses…

Depois as empresas. Os problemas foram adiados. Com moratórias, lay-offs e renovações de linhas de crédito. Mas a verdade é que muitas foram aquelas que deixaram de produzir e de vender. As consequências são evidentes para todos. Teremos um sem-fim de reestruturações empresariais, expressão simpática para não ter de falar em despedimentos, assim como um número não quantificável de empresas que não reabrirão as suas portas. Os alertas dos empresários não param de chegar. Mas politicamente ninguém quer assumir que vamos voltar a ter desemprego a sério e uma extrema dificuldade em fazer reentrar no mercado de trabalho muitos dos que agora irão ficar temporariamente dependentes da Segurança Social. Talvez por isso António Costa precise tanto de apoios à sua esquerda. Num quadro como este não convém nada sentir a contestação social crescer nas ruas.

Mas temos também excentricidades que nos deviam revoltar. Ao mesmo tempo que os “trabalhadores da cultura” se afundam num mar de dificuldades e de incerteza quanto ao futuro, assistimos a contratações milionárias por parte de entidades que teriam todas as condições para elas próprias evitarem a desgraça de profissionais do mesmo ofício. Fará algum sentido baixar ou suprimir ordenados a atores, jornalistas, produtores, argumentistas, operadores de som ou de imagem, montadores de estruturas e tantos outros trabalhadores ligados às atividades da cultura, do entretenimento e do espetáculo, ao mesmo tempo que se pagam verdadeiras fortunas a “estrelas” numa guerra destinada apenas a alimentar egos e a conquistar desesperadamente mais um, dois ou três pontos nas audiências? Ou no futebol. Fará sentido ver um clube gastar milhões em novas aquisições quando se sabe que a esmagadora maioria dos outros clubes que com ele disputam a mesma competição não conseguem cumprir compromissos com os seus colaboradores e que se vão mantendo “vivos” porque recorrem a declarações falsas de pessoas aflitas ou a apoios municipais de última hora?

Poderão dizer-me que tudo isto é demagogia e que umas coisas não têm que ver com as outras. Formalmente até pode ser que assim seja. Mas a verdade é que cada vez mais todos estamos dependentes uns dos outros e os excessos de um lado provocam quase sempre escassez no outro. Vivemos tempos de mudança. Todos afirmam que o mundo não voltará a ser como antes. Aproveitemos então a oportunidade para o tornar mais justo e menos desigual. Não podemos continuar a andar distraídos. Nem mesmo durante o verão.

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