Turismo aéreo está a aumentar pressão sobre clima, casas e economia 03/07/2026 14:21:05

O crescimento do turismo por via aérea tem sido apresentado como forma rápida de criar emprego, atrair receita e reforçar a competitividade dos destinos. Um da New Economics Foundation (NEF), pedido pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E), questiona essa leitura e defende que as contas públicas têm ignorado parte da fatura. Entram na equação o preço da habitação, a pressão sobre infraestruturas, a distribuição dos ganhos e o desvio de investimento para setores menos produtivos.Segundo os autores, Portugal surge entre os países onde estes efeitos podem ser mais visíveis. A análise estima que, entre 2026 e 2031, o crescimento das chegadas turísticas associadas à aviação possa acrescentar 193 euros à renda anual média dos novos contratos em zonas de pressão turística. Em termos relativos, a subida esperada das rendas é de 1,7%, uma das mais elevadas entre as 12 economias europeias analisadas.No entanto, a habitação é apenas uma das faces do problema, com o relatório a lembrar que a aviação representa cerca de 52% das emissões diretas do turismo e grande parte do crescimento das emissões do setor. Na Europa, espera-se que as emissões das chegadas internacionais por via aérea aumentem mais de 60% entre 2016 e 2030. Para os autores, isto revela uma contradição entre as metas climáticas e a aposta em mais capacidade aeroportuária."Este estudo prova que não podemos separar os protestos contra o turismo no terreno do aumento dos voos que chegam pelo ar", afirma Denise Auclair, responsável da campanha Travel Smart, que considera que gerir a sobrelotação turística enquanto se expandem aeroportos em cidades como Lisboa "é uma batalha perdida".O estudo não nega que o turismo tenha criado emprego em países como Portugal, Espanha, Itália ou Grécia, mas alerta que mais visitantes e mais empregos não significam, por si só, melhores condições de vida. Alex Chapman, responsável de política económica da NEF, afirma que "foram criados empregos, mas os baixos salários que oferecem são uma fraca compensação para o aumento dos custos da habitação, infraestruturas sob pressão e mais poluição".País deve apostar na qualificação do turismoEm Portugal, a ZERO considera que o estudo reforça a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento turístico. A associação argumenta que o aumento contínuo das chegadas por avião "não só agrava os impactos ambientais e climáticos, como também contribui para a pressão sobre o mercado habitacional, reduz o investimento produtivo na economia e não assegura uma melhoria significativa dos salários ou da qualidade de vida das populações".A organização liga também estas conclusões ao debate sobre a expansão aeroportuária em Lisboa. Aos impactos já conhecidos das emissões, do ruído, da poluição atmosférica, da biodiversidade e da pressão sobre infraestruturas urbanas, soma-se agora o agravamento da crise da habitação em zonas turísticas. Para a ZERO, insistir no aumento da capacidade sem ter em conta estes custos representa um erro estratégico.A alternativa defendida passa por trocar quantidade por valor, defendem os ambientalistas, que pedem que Portugal privilegie a "qualificação do turismo e não a sua expansão ilimitada", com maior permanência média, maior valor acrescentado e menor pressão ambiental e territorial. Esta visão implica reduzir a dependência do crescimento dos voos e reforçar modos de transporte de baixas emissões, como o comboio.Entre as medidas em cima da mesa está a criação de uma taxa de partida cobrada aos passageiros que deixam o país por via aérea. Para a ZERO, este instrumento ajudaria a internalizar custos ambientais e sociais da aviação e permitiria financiar património natural e cultural, mobilidade sustentável e qualificação do setor turístico.