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Fica a intenção...
23/02/2021 19:59

Sinceramente não sei como é que os nossos governantes ficaram surpreendidos quando descobriram que 82% dos pedidos de apoio extraordinário às famílias eram requeridos por mulheres. É verdade que sobram 18% de homens, mas não me parece que houvesse dúvidas de que com as escolas fechadas o grosso do acompanhamento dos filhos recairia sobre as mães. E não foram mais porque neste segundo confinamento, aquelas que estavam em teletrabalho eram impedidas de recorrer a esta opção, e até aqui não tiveram outro remédio senão o de compatibilizá-lo com os zooms e os TPC dos mais novos — e mesmo hoje só o podem fazer se tiverem filhos com menos de 10 anos, ou em certas circunstâncias excecionais.

Mas o facto de adivinharmos tudo isto não significa que conheçamos realmente as razões que levam as mulheres a escolher uma solução que representa uma interrupção laboral, com todas as consequências que pode ter no seu futuro profissional, e um corte de 35% no seu vencimento. A resposta a) a mais superficial, é a de que são mães, e as mães amam os filhos, blá-blá-blá; a b) mais conforme aos tempos em que vivemos, ditará que o faz porque o marido a oprime, mas é bem mais provável que a verdadeira seja a c) que reside no facto de o casal se ter deitado a fazer contas à vida, para concluir que o orçamento familiar seria menos atingido se prescindissem do salário mais baixo. Que é o dela, claro. Os últimos dados referentes a Portugal apontam para uma diferença no rendimento médio mensal de 150 euros, diferença que vai crescendo quando as mulheres sobem na estrutura hierárquica da empresa (recebem menos 617 euros), e não se esbate mesmo quando ambos possuem uma licenciatura (recebem menos 600 euros). E se já se estimava que seriam necessários 60 anos para erradicar este “pay gap”, o FMI veio agora dizer que em consequência da pandemia essa igualdade já só se atingirá em 2110, altura em que mesmo num cenário muito otimista não estarei cá para ver.

Registe-se, contudo, que não são só as mulheres que optam pela assistência à família que vão sofrer pesadas consequências profissionais, porque sem uma divisão mais equitativa dos cuidados dos filhos e das tarefas em casa é inevitável que a sua presença (mesmo que virtual) e a produtividade do seu trabalho sofram um forte abalo.

Segundo um estudo do Institute of Fiscal Studies e da UCL, que analisou um universo de 3.500 famílias inglesas em lockdown e teletrabalho, as mãe só conseguiam completar uma hora de trabalho pago ininterrupto por cada três horas dos pais. Quase metade (47%) do horário de teletrabalho das mulheres era conjugado com outras atividades, como cuidar dos filhos, fenómeno que só acontece a 30% do horário dos homens. Nem era de esperar outra coisa, dado que o relatório revelou que as mães cuidam dos filhos uma média de 10 horas por dia, e gastam mais duas horas do que eles nas tarefas domésticas. E tudo isto apesar de nestes confinamentos o pai já cuidar dos filhos o dobro do tempo do que fazia em 2014-2015, ou seja, eles até têm razão quando dizem que nunca fizeram tanto como agora.

Tendo em conta, dizem os especialistas, que este multitasking feminino implica necessariamente quebras de performance e criatividade, é previsível que a curto prazo impacte os rendimentos de cada um deles, e qual pescadinha de rabo na boca, lá recomeça o círculo vicioso.

Uf. Só podemos saudar (sem ponta de ironia!) a medida da senhora ministra Ana Mendes Godinho que procura travar esta bola de neve, acenando com um salário de 100% aos casais (com filhos até aos 10 anos) que se comprometem a repartir a assistência à família, teletrabalhando em semanas alternadas. O Decreto-Lei n.º 14-B/2021 foi publicado na segunda-feira, 22 de fevereiro, e esperamos que até ao final de março abram pelo menos as creches e o primeiro ciclo, mas fica a intenção...

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